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domingo, 13 de maio de 2012

Please don´t go

Para aqueles dois aquela seria apenas mais uma noite e aquele seria apenas mais um encontro casual numa balada. Depois nem saberiam o nome um do outro. Seria, se no exato momento em que se perderiam e talvez nunca mais se vissem não tivesse começado a sequência flash back e tocado Double You - "Please don´t go".
Alguma coisa nessa música fez acontecer o inexplicável, o esotérico. Sem palavras apenas os olhares falaram entre si, exprimiram o que estava na alma, contaram sobre como já deixaram momentos se perderem nas muitas vezes em que o sentimento foi vencido pelo orgulho, pela timidez e esbarrou na incapacidade de se expressar. Ela foi embora, mas dessa vez deixou escrito num pedaço de papel sobre a mesa: "Please don´t go" e um número de celular...
Adriano Trinta

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A vendedora de amor

Todas as noites lá está ela na mesma esquina de uma rua escura, iluminada pelos faróis dos carros que passam devagar. Ali, no outdoor da vida, é onde anuncia seu produto. Diz que vende amor a quem pagar o preço. Seu amor não é caro, mas alto é o preço da ilusão de por ela ser amado.

Bonita, simpática e bem falante, bem poderia estar nos salões, nas altas rodas. Pretendentes não lhe faltam com ofertas de torná-la esposa. Por que razão preferiria as ruas? Porque do produto que ela vende ninguém nunca a convenceu a comprar...

Adriano Trinta

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Goleiro de handebol

Minha primeira tentativa como esportista foi no handebol. Magrelo, não tinha porte físico que aguentasse o tranco, virei goleiro. Escolha infeliz. Se goleiro já é uma posição ingrata no futebol, no handebol é puro masoquismo. Tanto apanha quanto leva bolada. Sem falar do estigma natural da posição que é carregar a culpa pela derrota. Goleiro pode ir de herói a vilão em poucos segundos.

Estudava numa escola que tinha o melhor ginásio esportivo da época. Então era comum em nossos treinos a presença de atletas veteranos. Alguns até já consagrados, integrantes da seleção amazonense e até brasileira.

Numa dessas, faltava um para completar o coletivo e o treinador chamou o Piolho - ponta direita da seleção, um gigante que derrubava a trave com um arremesso só pra assustar o goleiro. Para meu azar Piolho entrou no time adversário. Pois bem... em determinada jogada lá vem Piolho já sem marcador, saí em "X", característica de goleiro de handebol, todo aberto... Piolho arremessou... bem onde não devia, no meio do "X"... Defendí o gol certo, mas passei muitos anos com a desconfiança de que jamais teria filhos.

Adriano Trinta

Paixão de menino

Filha de Dona Cleide e de seu Mário, Cleidemar escapou de ser batizada Maricleide, mas definitivamente qualquer dos dois nomes não fariam jus à beleza da dona.

Eu era ainda menino de tudo e Cleidemar apesar de ter a mesma idade cronológica já tinha ares de moça feita.

Estudávamos na mesma turma da escola. Naquele tempo as mesas eram para dois, sentávamos sempre juntos. Quem chegava primeiro guardava o lugar para o outro, dividíamos o lanche, ela sempre trazia alguma coisa diferente para comermos e eu retribuía com bombons sonho de valsa ou serenata de amor.

Foi minha segunda paixão, após a desilusão da primeira - minha professorinha do primeiro ano. Viví esse idílio por um ano inteiro. Até Cleidemar descobrir que era minha namorada e terminar tudo comigo.

Adriano Trinta

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Os embalos de sábado a noite

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE

Que privilégio ter vivido os anos 70/80, no tempo das discotecas e dos embalos de sábado a noite. Sim! As baladas chamavam-se embalos e noite de embalo era o sábado. Discotecas eram o templo sagrado dos dançarinos, profusão contagiante de cores, luzes e sons. Onde os rapazes se transformavam em John Travolta e as moças em Olívia Newton John.

A produção visual era de lei. Muita cor, muito brilho da cabeça aos pés. Meu traje preferido era uma calça pantalonas de acetinado marrom, camisa branca de gola alta e indefectíveis sapatos caramelo - iguais aos do Travolta, claro. Corrente com crucifixo no pescoço, penteado armado no gel e estava pronto mais um Tony Manero - personagem central do famoso filme que dá titulo a este post. Não dançava como ele, mas que tentava, tentava.

Tenho saudade dos embalos daquela época. As baladas de hoje não chegam nem perto em animação e glamour. Não haviam os recursos tecnológicos nem as superproduções disponíveis atualmente, mas havia algo que não sei descrever exatamente e que fazia toda a diferença... Acho que era a grandeza da alma de artista que tomava conta de todos nós. Só isso... Ou tudo isso!

Adriano Trinta

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Peixe morre pelos olhos

Canoa amarrada num tronco de árvore, Tio Dico e eu na paciente espera do pescador desde cedo da manhã. Já era hora do almoço e nada de pegar peixe algum, a despeito dos tucunarés pulando no lago, provocadores em volta da canoa, mas fisgar que é bom, nem com nojo!

Tio Dico lastimava não termos levado equipamento algum além dos caniços, anzóis e iscas de pirão de farinha d´agua. Tivéssemos iscas artificiais e esses bichões não estariam fazendo graça dizia ele, com a autoridade de muitos anos de pesca. Segundo ele o tucunaré é facilmente atraído pelo multicolorido das iscas imitando peixinhos.  Isso não tínhamos, mas eu estava vestido com uma camiseta de tecido sintético da seleção brasileira, amarelo-canário, novinha...

A necessidade é a mãe da invenção. Rasguei a camiseta, enrolei cuidadosamente um pedaço imitando um peixinho e amarrei junto ao anzol.  O resultado não tardou a aparecer fisgado. Perdi a camiseta, mas almoçamos a mais deliciosa caldeirada de tucunaré de todos os tempos.

Adriano Trinta

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Papai Noel me enganou

Passei o ano inteiro sendo um bom menino. Em verdade eu era mesmo bem comportado. Mas, por via das dúvidas, não fiz nem as poucas traquinagens a que me atrevia. Eu queria muito que Papai Noel atendesse meu pedido, registrado em cartinha confiada aos adultos que se incumbiram de entregá-la ao destinatário.

Pedi um revólver de espoleta, desejo comum entre os meninos da época, para brincar de mocinho e bandido na rua. Naquele tempo não havia ainda proibição e os revólveres de brinquedo eram imitação perfeita dos de verdade. Era um desses que eu queria. Queria muito!

Depois de uma espera que a mim pareceu a vida inteira, finalmente chegou a noite de Natal. Fui deitar cedo. Não conseguia dormir de tanta ansiedade. Mas, em algum momento devo ter cochilado... Quando acordei estava ao meu lado o tão sonhado presente. Melhor dizendo, estava ao meu lado um presente... Mas, não era o tão sonhado! Era um revólver sim, mas não o que eu havia esperado tanto. Era grande demais, não era de metal, era de plástico amarelo, com uma imensa cara de boi desenhada em alto relevo na coronha preta, e o pior... não era de espoleta! Não imitava o estampido de um tiro de verdade. Mal fazia um "plec" de plástico seco...

Triste e desapontado, afivelei o coldre - sim, havia um coldre, com estrela de xerife, que de tão grande batia no meu joelho - e agradeci, pra não deixar triste o Papai Noel, que com certeza havia feito o melhor que podia.

Mas, tristeza pouca é bobagem! Eu havia falado para todos os meninos da rua que iria ganhar o tal revólver . Cedo a meninada estava à minha porta, chamando para brincar com eles. Todos com seus revólveres estalando espoleta, fazendo barulho, espalhando cheiro de pólvora no ar. Eu nem quis sair para brincar com eles. Tentei evitar a humilhação. Mas, criança é bicho cruel. Acabaram descobrindo meu imenso "revólver de matar boi", que foi como batizaram meu presente. Fui motivo de gozação por muito tempo na rua e perdi a crença em Papai Noel.

Por Adriano Trinta

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Giselda


Giselda era linda! Um galináceo de primeira linhagem, alimentada com arroz e afagos. Contradizendo os mais velhos, nem morreu nem ficou mofina por ter sido criada desde os primeiros dias sob os carinhos da criançada. Era nosso bichinho de estimação, participava de todas as brincadeiras, nos seguia feito um cão de guarda e agia como se fosse. Vigiava a gente. Tinha ciúmes e gostava de dengues. Só faltava falar. Mas entendia tudo e nós, crianças, a entendíamos também.

Passou-se o tempo e Giselda tornou-se uma bela e formosa fasianídea. Passeava faceira pelo quintal e em todos que a viam despertava desejos de gula. Menos em nós, crianças, que tínhamos por ela apego sentimental.

Certo dia, sumiu Giselda! Procuramos pelos arredores, em vão! Descobrimos tempos depois seu paradeiro. Foi levada pelo padeiro, que de madrugada passava distribuindo seu produto pelas tabernas próximas. Sempre cobiçou a Giselda e a teve... na panela de sua casa! 

Triste fim da bela Giselda!

Por Adriano Trinta

quarta-feira, 22 de junho de 2011

As fogueiras de São João


No meu tempo de menino, véspera de São João só perdia em animação para a véspera de Natal.

Eu morava numa rua de piçarra, onde mais que vizinhos os moradores eram amigos de longa data. Nessa época a rua era toda enfeitada de bandeiras, tarefa executada pela meninada que entretia-se dias e dias nesse afã. Mas bom mesmo era a tão esperada noite de São João. Difícil encontrar alguém que não acendesse uma fogueira na frente de sua casa. A rua, que não era bem servida de iluminação pública, ficava uma lindeza nessa noite.

E que noite!  Fogos, brincadeiras, prendas, quadrilha, muita comida e música de arraial na voz dos alto-falantes ... E Viva São João!

Por Adriano Trinta

terça-feira, 19 de abril de 2011

Todo dia é dia de índio



"No meio da floresta amazônica
Existe um paraíso chamado manacá
Linda princesa que encanta corações
E suas crianças deliram a contar
Histórias, mitos e lendas

Uirapuru no meio da floresta
Convida essa nação
Pra ficar toda em festa
Uirapuru com seu canto esplendor
Encanta o índio que é o nosso defensor

Trecho da música Mitos e Lendas - Guerreiros Mura, Composição de Aílton/Salomão/Adriano/Hemanyel

Homenagem do Filho de Barbeiro à nação índigena e a todos os que reconhecem ter sangue índio correndo nas veias, especialmente aos descendentes dos bravos guerreiros Mura.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Perdeu playboy!


Na minha época de escola havia uma brincadeira recorrente, o "escapole-bate-e-fica". Precisava ser "contratado", um gesto simbólico onde os "contratantes" conectavam os dedos médio e indicador. O "contrato" ficava valendo até o "descontrato" e para pedir trégua tinha que ficar fazendo figa. Nessa situação de figa adquiria-se imunidade.

A brincadeira consistia em bater na mão de quem estivesse segurando alguma coisa e pegar o objeto antes de cair no chão. Geralmente canetas, mas valia para tudo inclusive o lanche. E não podia choramingar. Contratou estava contratado, perdeu estava perdido e isso era respeitado ao extremo.

Como bem dizia o nome da brincadeira, escapuliu-bateu-ficou. Algo equivalente ao "perdeu playboy" dos dias de hoje. Havia menino com coleção de mais de trezentas canetas e isso dava um alto status ao aprendiz de gangueiro.

Por Adriano Trinta


terça-feira, 29 de março de 2011

Meu primeiro Fusca


Fusca 79, cor branca, excelente estado de conservação, bancos reclináveis de couro, lataria 100%, motor e caixa de marcha à toda prova, pneus tala larga, descarga Kadron, faróis de milha, toca-fitas Roadstar. Parece anúncio dos classificados de jornal, mas é a descrição do meu primeiro carro de verdade.  Sim, porque o primeiro que eu comprei não tive o prazer de dirigir nem para tirá-lo da garagem. Já contei essa história aqui.

Com esse Fusca a história foi diferente. Pertencia a um colega de trabalho que não tinha nenhum zelo pelo carro. Fiz uma proposta de compra que ele aceitou na hora. Que dia feliz! Já andava aborrecido de tomar ônibus lotado e nesse dia voltei para casa de carro. Sujo, encardido, derrubado, mas... um carro!

A partir desse dia minha vida era arrumar o Fusca. Banho de tinta, polimento, manutenção na mecânica, troca de pneus e o carrinho já mudou de feições. Aliás, mudou tanto que o antigo dono não o reconheceu quando o viu renovado. Realmente parecia carro novo - naquela época Fusca ainda era fabricado. Fusca em pé, etapa seguinte foi equipa-lo. Até nisso o besouro era imbatível. Com pouco investimento já virava carro de boy, arrancando olhares de cobiça da galera jovem e olhares de soslaio dos mais velhos que não gostavam nadinha de carros modificados.

Curtí demais esse Fusca. Possuí muitos outros depois, mas nenhum teve a importância desse primeiro. Era o meu Herbie particular.

Por Adriano Trinta

quarta-feira, 23 de março de 2011

O fumante ocasional


Houve uma época em que eu fumava. Ou melhor, comprava cigarros. Anos 80. adolescente querendo impressionar as meninas, achava que o cigarro me fazia parecer mais velho, mais másculo, mais charmoso, mais seguro... mais um monte de coisas. Certamente influenciado pela maciça propaganda da indústria tabagista. Naquele tempo não havia proibições nem restrições do Ministério da Saúde e quem não fumava não era de boa raça.

Então eu comprava cigarros. Uma carteira por dia, porque a marca mais fumada desde sempre foi o "se me dão". Mas eu até gostava que a carteira acabasse no mesmo dia. Se minha mãe soubesse que eu andava com cigarros ia me dar uma bronca daquelas. Eu já era independente financeiramente. mas como diz um antigo ditado "enquanto comer do meu feijão vai provar do meu cinturão".

As propagandas de cigarros eram um capítulo à parte. "Ao sucesso com Hollywood" certamente era a mais famosa. Superprodução nos videoclipes que mostravam uma galera bonita, jovem, saudável, sempre praticando algum esporte radical... e fumando, claro. Haviam diversas marcas, mas o meu preferido mesmo era o kingsize filtro da carteira dourada. Afinal "O importante era ter Charm!".

Por Adriano Trinta


segunda-feira, 21 de março de 2011

Conversa de calango


Dia desses encontrei um calango na pia da lavanderia de casa. Um filhote. Deve ter se aventurado atrás de algum inseto, caiu e não conseguiu mais sair devido à superfície lisa da cuba. Com jeito, coloquei um pano formando uma rampa para a borda e de lá uma tábua para ele descer. Saí de perto para não assusta-lo e fiquei observando. Ele saiu desconfiado e sumiu lá para os fundos do quintal. O terreno é coberto por vegetação, então tem muitos desses bichinhos por lá.

Uns dois dias depois estava eu tomando café na varanda e apareceu novamente o calanguinho. Ele e mais dois calangos grandes, que me pareceram ser o pai e a mãe dele. Os três ficaram me olhando e imaginei que o filhote havia trazido a família para apresentar ao seu benfeitor. Sorri... olhei para eles com o olhar de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca e eles entenderam o sinal. Desse dia em diante passeiam pelo quintal a qualquer hora, totalmente despreocupados em relação a mim. Somos amigos.

De vez em quando coloco mamões maduros sobre um toco, no quintal. Eles não comem as frutas, mas adoram os mosquitinhos que elas atraem.

Por Adriano Trinta

segunda-feira, 14 de março de 2011

Pés de barro












Jovem era ele um deus. Altivo, seu olhar não conhecia o medo. Com as botas de sete léguas varreu o mundo, viu chuva de estrelas, viu mula sem cabeça, viu caipora e viu boitatá.

Em sua odisséia uma derrota apenas... O venceu cruel e impiedoso Tempo!

Não envelheceu nem feneceu... Ruiu. Não é mais um deus!

Por Adriano Trinta

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher - 8 de Março



Hoje é o Dia Internacional da Mulher!

E amanhã... e sempre! O Dia da Mulher é todos os dias.

Dias das mulheres do mundo todo, de todas as raças, de todas as idades, de todas as classes sociais. Das mulheres de todas as lutas, de todas as vitórias, de todas as conquistas. Das mulheres que todos os dias nos abençoam, nos amam, nos compreendem e nos repreendem.

Todos os dias são das mulheres que nos geram todos os dias.
 
As bençãos de Deus à sua melhor criação - a mulher!
 
Por Adriano Trinta

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Meu time do coração


Não sei exatamente como nasce a paixão por um time de futebol. Acredito que cada um tem uma história diferente para justificar a escolha.

No meu caso, ainda menino ganhei duas camisetas de times de futebol. Uma do Atlético Rio Negro Clube e a outra do América Futebol Clube, ambos times do futebol amazonense.

Ganhei as duas de uma vez só. Imediatamente identifiquei-me com o Rio Negro. A camiseta do América ficou esquecida, enquanto a do Rio Negro virou minha segunda pele. Era orgulhosamente um "barriga preta", alusão ao uniforme oficial - camisa branca com uma faixa horizontal preta.

Interessante que nunca vi meu time jogando, mas torcia pelo "Alvinegro". Brigava por ele. Arrumava confusão com os nacionalinos - torcedores do Nacional, agremiação azul e branco, eterna rival do Rio Negro e que com ele protagonizava o maior clássico do futebol amazonense, o Rio-Nal. Até a inauguração do grande estádio Vivaldão, o Parque Amazonense era o palco desses grandes confrontos entre o Galo - mascote do Rio Negro e o Leão - mascote do Nacional.

Depois da primeira camiseta, minha maior alegria de tocedor mirim foi uma bandeira do "Galo da Praça da Saudade", que ganhei ao completar um álbum de figurinhas da época.

Por Adriano Trinta

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Minha primeira professora


Ela chamava-se Iaciara. Nome de origem tupi-guarani que significa água da lua ou reflexo da lua. Hoje eu sei disso, mas na época, para o menino de tenra idade, Iaciara era sinônimo de mulher mais linda do mundo. E linda ela era mesmo, recordo perfeitamente. Alta, branca, esbelta, cabelos loiro-escuro emoldurando um rosto perfeito onde detrás dos óculos sobressaiam-se duas safiras que faziam as vezes de um par de olhos. Nunca vi olhos tão azuis, sedutores. Ainda lembro do efeito hipnótico que causavam em mim.

Mas como não lembrar? Foi minha primeira professora e não escapei à regra, foi também minha primeira paixão. Não posso dizer que ensinou-me as primeiras letras, porque entrei na escola aos nove anos de idade e já sabia ler, escrever e toda a tabuada de cor. Mas com ela aprendi a fantasiar... Ou melhor, "por ela", visto que a fantasia era só minha. Eu não perdia uma aula sequer. Aluno assíduo, ia à escola até mesmo estando doente. Detestava os feriados e finais de semana. Minha mãe ficava muito contente com essa minha dedicação aos estudos.

No mês de dezembro vieram as férias. O término do ano letivo apartou-me da minha grande paixão. Difícil foi acostumar no ano seguinte com outra professora.

Por Adriano Trinta

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Skatista


Vocês podem não acreditar, mas eu já fui skatista. E dos bons. Morava em Manaus, cidade onde o que não falta é ladeira. Portanto, half na porta de casa.

Eu tinha uma prancha das melhores na época, Hang Ten - a marca dos dois pezinhos, shape de madeira, parecia uma prancha de surf em miniatura.

Andava em bando, como todo skatista que se preze. Camiseta com gravura manera, calça jeans normal - nunca gostei das folgadonas, tênis e, de proteção somente joelheiras e a graça de Deus. Essa me salvou muitas vezes de me quebrar todo nas vertiginosas descidas no asfalto.

Mesma sorte não teve Meire Jane, uma moça linda que andava de skate conosco. Certa vez, numa subida de ladeira íngreme agarrada ao pára-choque de um ônibus, Meire Jane não viu uma tampa de hidrante na pista, tropeçou, perdeu o skate e subiu vários metros de asfalto sendo arrastada pelo veículo. Ficou escoriada da cabeça aos pés. Acho que até hoje tem no corpo as marcas da aventura.

Tirante os tombos, o mais era só alegria. O prazer de sentir o vento batendo no rosto, a sensação indizível de poder, de liberdade, de domínio do corpo nas manobras...

Adrenalina pura! Quase um super-herói.

Por Adriano Trinta

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cheiro de infância

Cheiro de plástico novo me lembra da infância e do início do ano letivo.

Diferente da meninada, eu esperava ansiosamente pela volta às aulas.
Pela lista do material escolar. Um tormento para minha mãe, pelos gastos que precisava ter, e uma festa para mim pelo prazer de ter coisas novas.

Gostava muito do azáfama das compras. Da romaria pelas livrarias e papelarias do centro comercial de Manaus. De escolher os cadernos, lápis, canetas, réguas e a bolsa nova - ainda não havia a moda das mochilas.

Geralmente não era comprado exatamente o que eu queria, a escolha final era pelo preço. Mas, tudo bem! Valia a diversão. O prazer do consumismo. De por alguns momentos ter tido o gosto de opinar. Afinal, naquele tempo, como dizia minha avó, menino não tinha querer.

Por Adriano Trinta